O Dia em que Venderam um Livro sem Final: A Garota da Capa Vermelha



Se você é fã de cinema, cultura pop ou literatura, sabe que a paranoia de Hollywood com spoilers sempre existiu. De scripts falsos entregues a atores da Marvel até gravações sob esquemas de alta segurança em Game of Thrones, os estúdios fazem de tudo para evitar vazamentos antes da estreia.


Mas em 2011, uma produtora levou essa paranoia a um nível completamente inédito — e revoltante. Imagine comprar um livro super hypado, passar noites em claro devorando as páginas e, ao chegar no clímax da história, descobrir que o livro simplesmente não tem final.


Em vez do desfecho do mistério, a página final trazia um aviso corporativo mandando o leitor acessar um site de internet dali a dois meses para ler o último capítulo. Essa é a história do desastroso lançamento de A Garota da Capa Vermelha, o livro que tentou inventar o "conteúdo por DLC" na literatura.


 A Corrida do Ouro das Adaptações Juvenis


Para entender como essa atrocidade comercial aconteceu, precisamos voltar a 2011. O mundo pop vivia o auge da "Era de Ouro das Adaptações Juvenis". As grandes distribuidoras buscavam desesperadamente o próximo fenômeno de bilheteria:


 Harry Potter estava lançando sua última parte nos cinemas, deixando um vácuo bilionário.

 Crepúsculo se aproximava do fim, deixando milhões de adolescentes órfãos de triângulos amorosos góticos.

 Jogos Vorazes estava em préprodução e Percy Jackson havia estreado no ano anterior.


Nesse cenário, os estúdios perceberam que os livros de sucesso para adaptar estavam acabando. A solução de Hollywood? Criar o filme e o livro ao mesmo tempo.


O Dedo de Leonardo DiCaprio e a Diretora de Crepúsculo


O projeto começou com uma ideia conceitual de ninguém menos que Leonardo DiCaprio, que desejava uma releitura sombria e gótica do conto da Chapeuzinho Vermelho. DiCaprio colocou sua produtora, a Appian Way, no projeto e assumiu o papel de produtor executivo.


Para a direção, chamaram Catherine Hardwicke, a diretora responsável pelo primeiro filme da saga Crepúsculo. Durante a préprodução, Catherine percebeu que o roteiro tinha mais detalhes e histórias de fundo do que caberia em um longametragem de 100 minutos.


Ela então escalou a escritora iniciante Sarah BlakelyCartwright para ir ao set de filmagens, entrevistar o elenco e escrever um romance baseado no roteiro do filme.


 A Estratégia de Marketing Falsa


A jogada comercial era clara: lançar o livro meses antes do filme para criar a ilusão de que o longa era "baseado em um bestseller de sucesso". Várias edições foram para as prateleiras sem nenhum aviso de que se tratava de uma novelização de roteiro.


O plano funcionou perfeitamente no início: lançado em janeiro de 2011, o livro foi parar direto no topo da lista de mais vendidos do New York Times, permanecendo no Top 10 por 19 semanas consecutivas. Até que os leitores começaram a chegar perto da página 300.


 Uma História sem Desfecho


O enredo de A Garota da Capa Vermelha funciona como um mistério investigativo clássico: a vila da protagonista Valerie é aterrorizada por um lobisomem, e qualquer habitante pode ser o monstro (a avó, o namorado rico ou o lenhador pobre). Todo o apelo de venda do livro dependia da pergunta: Quem é o lobo?


Porém, no último capítulo impresso, Valerie está correndo pela floresta para salvar sua avó, encontra um de seus pretendentes, suspeita que ele é o monstro, dá um beijo nele e... a história acaba.


Ao virar a página esperando a revelação, o leitor encontrava o seguinte aviso:


"Este é realmente o fim da história de Valerie? Visite o site www.redridinghoodbook.com para descobrir."


Ao acessar o site, a tela exibia a mensagem "Você ainda acredita em finais felizes?" e informava que o capítulo final só seria liberado no dia 14 de março de 2011 — uma semana após a estreia do filme nos cinemas.


Com medo de que os leitores revelassem a identidade do lobisomem na internet e estragassem a bilheteria, a produtora optou por cortar o final da obra impressa e trancálo a sete chaves.


A Fúria dos Leitores e o "Capítulo Bônus"


A reação na internet foi imediata. O livro foi soterrado por milhares de avaliações de 1 estrela em plataformas como Amazon e Goodreads. Os leitores se sentiram roubados por pagarem o preço cheio de uma obra e receberem apenas dois terços do conteúdo.


Quando o dia 14 de março finalmente chegou e o tal "Capítulo Bônus" foi liberado no site, a indignação aumentou. A palavra "bônus" sugere um material extra ou epílogo, mas o arquivo disponibilizado era simplesmente o Capítulo 30 recortado da história principal, continuando no mesmo segundo em que o livro impresso parou.


O Fracasso nos Cinemas e o Legado


A tentativa desesperada de proteger a bilheteria não salvou a produção cinematográfica:


 O filme foi massacrado pela crítica, acumulando apenas 10% de aprovação no Rotten Tomatoes.

 A produção foi criticada por ser uma cópia genérica de Crepúsculo, utilizando a mesma estética, filtros e até o mesmo ator para interpretar o pai da protagonista (Billy Burke).

 A bilheteria foi pífia e não conseguiu gerar a franquia pretendida pelo estúdio.


 O Fim do Conteúdo


Atualmente, o site oficial do livro não existe mais. Quem adquire edições impressas antigas em sebos fica literalmente sem o final da história. Anos mais tarde, o capítulo 30 foi incluído automaticamente apenas nas edições digitais do ebook.


O caso de A Garota da Capa Vermelha permanece como um dos maiores alertas da cultura pop sobre o que acontece quando a ganância corporativa e a neurose de marketing se sobrepõem à integridade da arte e ao respeito ao consumidor.




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